Arquivo de agosto 2009

Televisão

Messias modernos

TelevisãoO missionário que trabalha numa agência interdenominacional não traz o devido retorno à igreja ou igrejas que o enviaram. Algumas vezes, se ele está muito distante ou se comunica pouco, o relacionamento se descolore com o tempo e ele é mal compreendido. Torna-se quase uma culpa que alguns carregam, ou um peso financeiro, facilmente substituível pela necessidade de um projetor novo, mais cadeiras ou por um obreiro assalariado para a congregação.
Conheço famílias que foram abandonadas no campo sem aviso prévio. De repente a mesada parou de chegar. Descobriram, depois, que uma decisão da hierarquia da denominação mudou as regras do jogo e decidiu cortá-los da folha de ofertas. Por vergonha ou por falta de interesse, ninguém se deu ao trabalho de comunicar aos missionários. Alguns voltaram, outros ficaram porque a fonte é sempre o Senhor, e não faz parte de seu caráter desamparar ninguém.

A igreja local empenhada cobra resultados espirituais “concretos”, números de convertidos, de batismos, de células de estudo. Há missionários que contam até as pedras do caminho para prestar contas. Outros gastam boa parte de seu tempo bolando maneiras de “comunicar” melhor, pintando de cores vivas demais o trabalho, traduzindo seu dia-a-dia em espiritualês (este é um dom que eu gostaria de ter). Outros, ainda, tentam educar os mantenedores falando a verdade: “Hoje passei o dia cozinhando e lavando panelas para que os índios de dez tribos diferentes que aqui estão possam ter aulas sobre cidadania”. Uma frase assim não rende dividendos. Nem “cozinhar”, nem “lavar panelas” nem “cidadania” é espiritualês.
Uma certa dramaticidade parece necessária. Muitos missionários escrevem cartas que são rosários de lágrimas — descrições infindáveis dos horrores do campo, das doenças, da impiedade do povo. A postura messiânica é essencial: “Se não fosse o meu trabalho ou de minha família, o que seria destes pobres selvagens, destas garotas prostitutas, destes perversos muçulmanos?”. A história do mês tem que ser a mais emocionante possível, extraída de um cotidiano tedioso. Bolsos também são abertos com lágrimas. É o evangelho jogando no mercado de capitais da pobreza.
Infelizmente nem a missão nem a igreja (generalizando grosseiramente) têm consciência da importância do evangelho no contexto geopolítico atual. Se somos chamados ao amor e não ao proselitismo, nos tornamos produto único no mercado. Não temos time a defender a não ser a pessoa de Jesus, a compaixão dele, a cura dos ódios sociorreligiosos-raciais que só ele pode providenciar. Soube por uma pessoa que uma tradução do Evangelho de Mateus feita dois séculos antes de Maomé foi encontrada em uma língua popular do Oriente. Muçulmanos ultra-radicais, sabendo disto, pediram: “Por favor, nos ajudem a recuperar o Jesus que o Ocidente nos tirou; queremos conhecê-lo”.

O Jesus do mercado carrega marcas na camisa como jogadores de futebol; o verdadeiro fala com todas as línguas, culturas e religiões. A missão que tem consciência geopolítica sabe de sua função de linha de segurança que mantém num fino equilíbrio situações tão perigosas quanto uma granada sem pino. A igreja que tem esta consciência não consegue cobrar placas, ou prosélitos. Ela sabe que enviou uma ovelha ao meio de lobos, para “apenas” ensinar futebol, dar aulas, acalentar crianças, tratar malárias e HIV, andar de burca, atrás da cortina negra, para, quem sabe, com auto-sacrifício, trabalho e muita sabedoria, exercer o doce-azedo ministério da reconciliação.

Bráulia Ribeiro

(extraído da ULTIMATO – Da Linha de Frente – pág. 56 – Julho/Agosto 2008)

Corda bamba

Extremo paradoxo

Corda bamba

Hoje acordei com alguns pensamentos que rodeavam a minha mente que me fizeram rever algumas coisas em minha vida. Atrevi-me então, a escrever. Você já se deparou, em alguns momentos de sua vida, onde você sabe que ama Deus, sabe o que é correto, o que deve fazer, a postura a tomar, mas ainda assim você sente algo te “puxando” para o que não é correto. Seja a menor atitude, parece que sempre estamos devendo algo, que sempre há uma enorme falha em nós.

Quando tentamos, nos esforçamos e dedicamos para sermos parecidos com Jesus e não conseguimos, ficamos acabados, frustrados e o sentimento que temos é de correr atrás de algo inalcançável, um esforço em vão. Que extremo paradoxo! O que fazer então? Já que não vamos conseguir, para que tentar? Se tentamos tanto, por que não conseguimos?

Sabemos que a graça de Deus nos tira o peso de sermos perfeitos, mas ao mesmo tempo, jamais devemos deixar de buscar a perfeição. Para muitos talvez, não seja difícil entender isso, mas talvez para outros sim. Se pararmos para pensar, veremos que temos a tendência de complicar as coisas simples da vida, não é verdade? Viver o equilíbrio é algo que temos muita dificuldade; simplesmente porque ele nos liga a várias outras coisas como: disciplina, dependência de Deus e de outros, atenção, medos, expectativas, etc…

Talvez nessa vida sempre estejamos em dívida com Deus. Não por Ele, mas por nós mesmos e por nossa própria consciência, pois Ele já pagou a dívida que nenhum de nós seria capaz de pagar. Ele nos enviou um Juiz ao nosso favor. Fiel, Justo e Bom, esse Juiz não nos tira as conseqüências de nossos atos, ainda que nos humilhemos e nos arrependamos. Somos responsáveis por nossas escolhas… Sempre!

Viver no equilíbrio é andar no fio de uma navalha. Por mais que tentemos, não é fácil e uma hora podemos nos desequilibrar e cair; mas mesmo assim, Deus sempre estará pronto para justificar aqueles que se deixam ser justificados, reconhecendo a total dependência que há do Senhor. Viver o equilíbrio, permanecer no meio, não significa que não vamos passar por ambos os lados. O grande desafio é não permanecer neles… jamais desistir de buscar o centro. Só iremos conseguir, se Nele buscarmos constantemente!!…

Que Deus nos ajude nesta caminhada!!!

Ricardo Martins Teodoro

Ponto de Interrogação

Questionar é pecado?

Ponto de InterrogaçãoQuem nunca questionou na vida? Quem nunca o fez que atire a primeira pedra. Eu e meus irmãos nascemos em um lar onde diversas vezes ouvimos nossos pais dizerem: “na nossa época não era assim, não! Os mais novos jamais ficavam questionando os mais velhos, como se faz nos dias de hoje!!” Mas na realidade, mesmo vivendo nesse contexto, eles sempre fizeram o possível para nos dar a liberdade de perguntar e entender algumas questões que tínhamos dúvidas.

Há alguns anos atrás, as pessoas não podiam questionar os pais, as autoridades, líderes eclesiásticos, etc…  Mas hoje, em pleno século XXI, as coisas realmente têm mudado (e muito!)… as pessoas, cada vez mais,  têm deixado de ter medo de pensar, de expor suas opiniões, de questionar. Estão saindo de um sistema fechado onde determinadas palavras ouvidas, muitas vezes, foram consideradas como verdade absoluta e descobrindo a oportunidade de ouvir e ser ouvido; de receber algo e devolver outro; de respeitar e ser respeitado. Será que realmente esta é uma realidade em nosso mundo hoje?

Como somos seres que sofremos constantes transformações, a tendência das coisas é sempre mudar; porém esta mudança pode gerar dois lados: um positivo e outro negativo.

Mas afinal, qual é o problema de questionar? Isso não é um sinal de um progresso? De um passo a frente que a humanidade tem dado? Nosso comportamento com as pessoas pode refletir no nosso comportamento com Deus; então… e quando questionamos a Deus? Será isso um pecado? Será que podemos questionar ao Senhor, Criador dos céus e da Terra? Em um de meus dias de reflexão, estava pensando sobre esse assunto e fiz um link com um tema que gosto muito: a arte da música. Em determinadas músicas, há alguns acordes que são chamados acordes relativos. Para usá-los adequadamente, é necessário um músico de ouvido bem aguçado ou uma pessoa com uma boa e sensível percepção musical, pois eles (os acordes) são bem parecidos, sendo bem difíceis de distinguir. O interessante é que, usados de forma errada, por mais semelhantes que sejam, os ouvidos do músico ficam extremamente incomodados, como se tivessem ouvido um alto e forte ruído, desarmonizando a melodia.

Será que existe diferença entre questionar e querer entender? Creio muito na liberdade que Deus nos dá e sei que Ele não se importa com as perguntas que eu ou você possamos fazer devido às inúmeras dúvidas que surgem durante a nossa caminha de vida… Entretanto, penso que, se queremos ter uma melodia bonita e harmoniosa, devemos ter cuidado com a maneira que expressamos nossos questionamentos.

Quantas vezes nos deparamos com interrogações que parecem nos devorar como: “por que pessoas que amam a Deus e vivem de forma tão “justa”, morrem de forma trágica, degenerativa, sofrida, injusta…?” “Por que um Deus Soberano permite que milhares de pessoas morram por fenômenos naturais, de forma inesperada, como por questões religiosas, políticas ou até mesmo por balas perdidas?” Por mais que coloquemos para fora os infindáveis pontos de interrogação que formamos na vida, nunca, nada será mais importante do que a convicção de sabermos que Deus não cabe em nossa mente pequena e limitada; afinal, foi Ele quem as fez!!!! Pode uma criatura compreender a mente de Seu Criador?

Discutimos por inúmeras questões devido à nossa forma de pensar, crer, viver… e algo que tem sido alvo de muitas discórdias e até separações é o polêmico assunto Teologia. De um lado, calvinistas afirmando a idéia de que somos pré-destinados e do outro, arminianistas defendendo o livre arbítrio.  Quem pode nos garantir que Deus não atua dessas duas formas em determinados momentos? Nós homens, temos a eterna necessidade de obter respostas… mas definitivamente, para nem tudo há respostas… Que Deus seria esse se conseguíssemos explicá-lO?

Que as nossas dúvidas e questionamentos jamais abalem a nossa fé e amor pelo nosso Senhor. Que o brilho da Sua glória permaneça inabalável em nossos corações de forma que, mesmo se Ele não fizer, mesmo se eu não entender ou mesmo se eu não sentir, continuarei seguindo na busca em conhecer o meu Deus.

“Minha intenção,  Senhor, não é penetrar em tua profundidade, porque de forma alguma posso compará-la à minha inteligência; porém desejo compreender a tua verdade ainda que imperfeitamente, essa verdade em que meu coração crê e que ele ama. Porque não procuro compreender. Na verdade, creio porque se não cresse não viria a compreender.”

Anselmo de Canterbury

Ricardo Martins Teodoro.